Olha o quarto da minha filhinha de 12 anos… tá lotado de troféu, certificado pendurado na parede que ela mesma quis emoldurar. Tem medalha de vôlei da escola, umas olimpíadas de matemática que ela mandou bem, e feira de ciências com menções honrosas. Ela fica toda boba olhando praquilo, orgulhosa pra caramba.
Eu fico feliz também, mas… rola uma preocupaçãozinha, sabe? Passei anos em colégio particular, trabalhando em firma que falava em equipe mas premiava só o indivíduo – tipo, uns poucos no topo e o resto se achando um lixo. Lembro da prof de inglês listando nota no quadro, da maior pra menor, sem nome mas todo mundo sacava quem era o rei ou o fracassado. A minha sempre no topo, eu pirava com isso.
Essa loucura de prêmio e a corrida que não para
Eu era igual ela, colecionava tudo aquilo com uma fome danada. Uma prof botou no boletim que eu queria conquistar o saber, não aprender… achei elogio na hora. Pra mim escola era guerra mesmo, boletim provava que eu era a número um.
Competi com os amigos pro pré-vestibular com aprovação baixa, tipo mais difícil que USP. Lá dentro briguei por bolsa, quatro anos nessa disputa – sala, quadra de basquete. Diziam progressista mas era hora extra, sacrificar tudo pra passar o cara do lado. Fora jogava handebol, futsal, natação uns 3 ou 4 treinos por semana (nem lembro direito), aprendi time mas no fim premiavam as três estrelas e o resto batia palma. Voltava com troféu pra prateleira, deitava na cama de cima olhando aquilo brilhando, sonhando alto.
Essa ambição me jogou numa federal top, vestibular brabo, depois startup heroica e aos 28 cargo maneiro em agência de mídia em SP – sala de vidro, placa chique na porta. Tailleur caro, me sentindo o peixe grande na capital. Esforço valendo a pena, eleita a mais provável pro sucesso e tal, realizando tudo.
A escada que virou uma cobra
Vida era escadinha reta: infantil, fundamental, médio, pré, facul, startup, trampo top. Subia com foco total, louros em cada degrau, céu limpo na frente.
Aí bateram as dúvidas, tipo:
- Por que sucesso é mais hora no trampo que em casa? IBGE fala que uns 10% dos brasileiros ralam mais de 50h por semana, IBGE.
- 40h como mínimo pra vida adulta girar em torno?
- Empresa crescendo acima de tudo, isso é sucesso mesmo?
- Gerenciar mais gente te faz mais importante que eles?
- Salário sigiloso e subjetivo, sendo vital pra estabilidade?
- Valoriza força certa e ignora diversidade pro time bom?
- Fala em time mas bota um contra o outro…
Isso veio fuçando políticas numa empresa grande, mas 15 anos investidos na escada, não largava fácil. Ah, e tinha aqueles jogos de futsal no fim de semana que eu amava mas larguei pra focar carreira, besteira né.
Maternidade bagunçou tudo
Primeira filha nasceu e ploft, escada desabou, virou ziguezague. No trampo automático, invisível total – aí entendi subvalorizado de verdade.
Nos 12 anos seguintes currículo parado: mesmo cargo aos 40 que aos 30, firma menor sem glamour de entrevista com famoso ou papo com figurão. No começo me senti chutada pra fora da ambição, malabarismo louco de mãe trabalhadora – logística diária pra 8h e meia, noites de lição, flashcards, correndo entre atividade. Pra quê isso tudo?
Cheguei em estabilidade financeira, educação top abriu porta como OMS mostra no equilíbrio trabalho-vida, OMS. Gosto do que faço, melhor que muita gente… mas dava pra chegar com menos stress, tipo aqueles hábitos pra equilibrar, vai saber.
Não quero ela nessa furada
Não quero ela quebrada por ENEM, cursinho até meia-noite, moldes velhos. Faculdade top ou advogada não define potencial. Quero ela usando força pra comunidade que valoriza, beleza no pequeno, satisfação em ficar quietinha.
Achei isso numa cooperativa de trabalhadores que montei do zero – do jeito brabo. Chega de sistema que ignora cuidado, premia exaustão egoísta. Impacto é fundo, não largo. Prêmio empoeirado não vale nada.
Dizer chega é fácil, viver é desprogramar anos de condicionamento, autoestima fora da escada… vigília constante contra ego inflado. Pra isso, hábitos produtivos sem burnout, Conselho de Psicologia avisa risco da ambição tóxica, CFP. Relações reais como em resiliência mental.
Sucesso é tempo com quem ama, impacto perto… ela vai aprender me vendo viver isso, ou não? Sei lá au…







